Impulso do gasto primário do Governo Geral no 1º semestre de 2026 foi positivo, mas bem menor do que em 2022, com moderação puxada pelos governos regionais

Impulso do gasto primário do Governo Geral no 1º semestre de 2026 foi positivo, mas bem menor do que em 2022, com moderação puxada pelos governos regionais

21/10/2026

O Tesouro Nacional divulgou, em 30 de setembro, a atualização do boletim “Estatísticas Fiscais do Governo Geral”, com informações “acima da linha” até o 2º trimestre de 2026. Trata-se de uma base particularmente útil por permitir acompanhar, com defasagem relativamente curta, a política fiscal do agregado dos estados e municípios – e não apenas a do governo federal, cujos dados mensais são amplamente conhecidos.

 

A partir desses dados brutos, a equipe do Observatório de Política Fiscal do FGV IBRE realiza alguns ajustes (R$ constantes e ajuste sazonal), de modo a facilitar a análise da evolução dos gastos públicos nos diferentes níveis de governo. A base de dados pode ser acessada aqui, em formato Excel.

 

A figura a seguir apresenta a trajetória da despesa primária do Governo Central Orçamentário (conceito que exclui algumas despesas da União que, na verdade, são transferências para os governos regionais, como o FCDF e o Fundeb, dentre outras[1]) e do agregado dos governos regionais (estados e municípios). No caso do Governo Central Orçamentário (GCO), a leitura referente ao 3º trimestre de 2026 (linha tracejada) é uma estimativa, construída a partir dos dados oficiais de julho e agosto e da estimativa do Ipea para o resultado do governo central em setembro.

 

 

Como pode ser notado, a forte elevação do gasto do Governo Central Orçamentário observada no 1º trimestre de 2026 foi revertida nos dois trimestres seguintes: a despesa recuou no 2º trimestre e, pela estimativa disponível, deve ter recuado novamente no 3º trimestre, retornando a um patamar próximo ao observado em meados de 2025. Isso provavelmente refletiu a antecipação de algumas despesas, tais como pagamento de precatórios, emendas parlamentares e outros gastos discricionários.

 

Já no caso dos governos regionais, após o pico atingido no 1º trimestre deste ano, houve uma pequena queda no 2º trimestre – mas o nível de gasto permanece bastante elevado, quase 30% acima daquele observado no início de 2022, em termos reais. Ou seja: o fenômeno da “descentralização fiscal silenciosa” vem tendo continuidade – e não deveria mais ser “silencioso” e menosprezado nas análises sobre a macroeconomia brasileira.

 

Na medida em que as eleições gerais estão ocorrendo neste mês, é interessante analisar como os gastos têm se comportado comparativamente ao observado em outros ciclos político-eleitorais – nos quais é comum observar, em boa parte dos países, algum tipo de expansão fiscal. As duas figuras a seguir apresentam essa evolução, primeiro para o Governo Geral (governo central orçamentário mais governos regionais) e, em seguida, apenas para o Governo Central Orçamentário. Em ambas, o trimestre da eleição é identificado como “T” e as séries são normalizadas com base 100 sete trimestres antes do pleito (ou seja, dois anos antes das eleições).

 

 

 

No caso do Governo Geral, o ciclo atual (2025/27) acompanhou de perto a trajetória de 2021/23 até o 3º trimestre antes da eleição (T-3, que correspondeu ao 1º trimestre deste ano), mas descolou-se dela na leitura mais recente, referente ao 2º trimestre de 2026 (T-2): o gasto desacelerou para um nível cerca de 7% acima da base (em T-7), comparativamente a uma diferença de +10% no ciclo anterior no mesmo ponto do tempo. Com isso, a expansão acumulada até aqui situa-se em patamar semelhante ao dos ciclos de 2009/11 e 2013/15 e acima apenas do ciclo de 2017/19 – este último marcado pelo teto de gastos recém-aprovado e pela crise fiscal dos estados.

 

 

No caso do Governo Central Orçamentário, a trajetória é mais volátil. O pico do 1º trimestre de 2026 (T-3), de quase 13% acima da base (em T-7), superou o de todos os ciclos anteriores naquele mesmo ponto. Contudo, a reversão nos dois trimestres seguintes – incluindo a estimativa para o 3º trimestre (T-1), colocou o ciclo atual abaixo tanto de 2021/23 quanto de 2013/15 na véspera da eleição, e próximo do observado em 2009/11. Ou seja, a avaliação feita na nossa nota de julho – de que a dinâmica do governo central neste ciclo era mais expansionista do que nos anteriores – precisa ser qualificada com os dados mais recentes: o impulso concentrou-se no início do ano e perdeu força ao longo do 2º e do 3º trimestres. Convém lembrar que a forte expansão do gasto do GCO no 3º trimestre de 2022 decorreu em boa medida da chamada “PEC Kamikaze”, que ampliou o valor do benefício do Auxílio-Brasil e concedeu outras benesses ao longo do segundo semestre daquele ano.

 

A combinação desses dados de gastos com estimativas de multiplicadores para quatro grupos distintos de despesas permite calcular o chamado impulso do gasto público sobre a demanda agregada. A figura a seguir apresenta esse impulso para o Governo Geral acumulado nos primeiros semestres dos anos com eleições para presidente e governadores desde 2014.

 

 

Como pode ser notado, o impulso do gasto no 1º semestre de 2026 foi positivo, de cerca de R$ 27 bilhões (a preços do 2º trimestre de 2026), mas correspondeu a menos da metade do observado no 1º semestre de 2022 (R$ 58 bilhões). A diferença entre os dois ciclos é explicada majoritariamente pelos governos regionais: em 2022, estados e municípios – beneficiados por receitas extraordinárias e por um nível de caixa muito elevado – lideraram a expansão do gasto no primeiro semestre, ao passo que em 2026 o impulso regional foi bem mais modesto, com queda do gasto já no 2º trimestre. No governo central, por sua vez, o impulso do 1º trimestre foi em boa medida compensado pela retração do 2º trimestre. Em todo caso, o impulso de 2026 segue bastante superior ao dos dois ciclos eleitorais anteriores a 2022: em 2014 ele foi praticamente nulo (R$ 3 bilhões) e em 2018 chegou a ser negativo (cerca de -R$ 10 bilhões).

 

É importante ressalvar que a análise acima observa apenas a execução das despesas primárias. Ela não considera a execução da despesa financeira – que cresceu bastante nos últimos anos, em particular no caso da União, e que também pode ter efeitos sobre a demanda agregada – nem a política parafiscal (operações de bancos públicos, fundos e outros instrumentos fora do orçamento primário), que historicamente desempenha papel relevante em períodos eleitorais.

 

A respeito das despesas financeiras, meus colegas de IBRE, Lívio Ribeiro e Matheus Rosa, fizeram um cuidadoso levantamento, que pode ser acessado aqui e é resumido nas duas figuras abaixo.

 

 

 

 

 

Como eles enfatizam, “O efeito dessas medidas fiscais sobre o endividamento e a demanda agregada é mais indireto e incerto do que o observado em expansões do gasto primário. O desenho dos programas de crédito (prazos, taxas e condições de enquadramento), a efetiva adesão dos agentes (intermediários financeiros e tomadores) e os vasos comunicantes com a demanda agregada variam de iniciativa para iniciativa, o que dificulta quantificar o impacto unificado. Como exemplo, as evidências são de grande adesão às linhas imobiliárias, mas de frustração nas linhas automotivas”.

 

Com efeito, uma forma indireta de avaliar o impacto dessas políticas fora do orçamento primário é observar o comportamento efetivo das concessões de crédito direcionado, para Pessoas Físicas e Jurídicas. A figura a seguir apresenta a evolução dessas concessões, já em termos reais e dessazonalizados. Já a figura seguinte apresente o impulso de concessão de crédito direcionado – a variação absoluta dessas concessões em períodos eleitorais -, permitindo avaliar se há uma aceleração desses empréstimos em anos de eleições.

 

 

 

Como pode ser notado, o impulso do crédito direcionado neste ano de 2026 é menor do que em 2022 e em 2014, superando aquele observado em 2018.

 

À luz do exposto neste texto, constata-se que a expansão fiscal no ciclo político-eleitoral atual é inferior àquela observada em 2022. Não obstante, há uma diferença crucial, que torna a expansão atual mais deletéria em termos macroeconômicos: a economia brasileira vem operando com algum grau de superaquecimento desde 2024, ao passo que em 2021/22 havia excesso de ociosidade. Uma expansão fiscal quando o hiato é negativo torna a política fiscal/parafiscal anti-cíclica, algo que é desejável em termos de estabilização macroeconômica. Já uma expansão fiscal quando o hiato é positivo caracteriza-se como uma política pró-cíclica, que acaba tendo como uma das principais consequências a necessidade de uma taxa de juros real maior, dada a meta de inflação.

 

[1] Ver texto recente no Observatório de Política Fiscal explicando em detalhes essas diferenças, aqui. Convém notar que a despesa primária do Governo Central Orçamentário (GCO) correspondeu, em 2025, a cerca de 88% da despesa primária do Governo Central reportada pela STN mensalmente.

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